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domingo, fevereiro 19, 2012


Entrevista com Breno Melo

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Oi gente!
O convidado de hoje é o Breno Melo, autor do livro Marta, que digo desde já, uma simpatia de pessoa.



Oi Breno, nos conte um pouco sobre você, manias, o que faz nas horas vagas?
Vejamos se consigo resumir... Brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro, 31 anos, sexo masculino, ex-funcionário público, alguns poemas escritos em inglês publicados em antologias nos EUA e Europa, um romance chamado "Marta", fala alguns idiomas (como você pode perceber pelas pequenas traduções que aparecem ao longo do romance), leitor, etc.
Não tenho grandes manias ou passatempos, senão aquelas manias e passatempos da maioria, como ouvir música, conectar-me, etc. Tudo muito banal, tudo muito corriqueiro. 

Quando se descobriu um escritor?
Ainda não me descobri um escritor. Digamos que eu tenha escrito um livro para amigos, para meia dúzia de pessoas, e que o livro tenha tido muito mais que meia dúzia de leitores... As pessoas querem ler uma obra que não foi escrita para elas, e me chamam escritor.
Mas é claro que fico feliz por ver o romance despertar a curiosidade de um número cada vez maior de leitores, agradando-lhes ou surpreendendo-os. Tudo isso se deve, obviamente, às resenhas. A sinopse e a capa do livro não são apelativas, não são exageradas, nem fazem “grandes promessas” como os políticos em época de campanha.
É a opinião dos leitores, o boca-à-boca, que tem feito o sucesso do livro.

Encontrou alguma dificuldade para a publicação do livro? Qual a sensação de ver seu livro publicado?
Encontrei as dificuldades que todos encontram. De modo geral, as grandes editoras preferem comprar os direitos de publicar aqueles livros que fazem sucesso no exterior e não “apostam” tanto em novos autores nacionais. O livro “funcionou” lá fora, provavelmente vai funcionar aqui também, e isso é uma espécie de garantia de vendas. Sorte dos autores estrangeiros, que publicam tanto lá como cá, e azar dos escritores nacionais, que muitas vezes não publicam nem lá nem cá...
Já as pequenas e médias editoras, não podendo pagar 12 mil, até 80 mil pelos mesmos direitos além de contratar os serviços de tradutores renomados, são as que mais se veem obrigadas a “descobrir” novos autores nacionais e “valorizá-los”. Daí que não devemos pensar que as pequenas editoras são mais nacionalistas ou mais “boazinhas” que as grandes, nem que as grandes são más ou têm algo contra os autores nacionais. Há motivos, e motivos financeiros, já que toda editora é antes de tudo um empresa...
Ainda assim, de modo geral, os pequenos editores publicam o que gostam de ler, os critérios são mais pessoais, e qualquer gosto, como sabemos, é baseado em leituras antigas. Por isso, não é surpreendente que os pequenos editores apostem em “novidades” ou “obras originais” que lembrem seus romances favoritos de décadas atrás...
Essas são as dificuldades que um autor novo encontra quando bate à porta das grandes e pequenas editoras com os seus originais debaixo do braço. As probabilidades de publicação nas grandes são pequenas, e nas pequenas um autor novo tem que agradar ao “dono da casa”, cujo gosto geralmente é bastante particular ou já antigo.
Um grande editor costuma ser um entendido de administração ou um bom empresário, sem que seja, necessariamente, um especialista em Literatura. Um pequeno editor costuma ser um leitor que defende seu gosto literário, às vezes ingenuamente, pondo a editora no rumo da falência se seu gosto literário não é popular ou não encontra um nicho.
É claro que existem exceções, mas estou procurando falar da regra, do que é comum.
Seja como for, as probabilidades de publicação são maiores nas pequenas editoras; e seja qual for o motivo, nobre ou não, são estas as que mais “descobrem” novos autores nacionais. Ainda assim, isso não significa que um autor encontrará espaço nas pequenas se por acaso não encontrar nas grandes. José de Alencar, Drummond, Fernando Pessoa, Borges e outros nomes de peso da Literatura Nacional ou Estrangeira tiveram custeada ao menos uma de suas obras.

"Marta" trata de um tema pouco visto nos livros que é a bipolaridade, que motivo o levou a tratar sobre isso no romance?
Justamente pelo fato de ser um tema pouco visto. Mais precisamente, o livro fala de “transtorno bipolar na adolescência”, que já é diferente do “transtorno bipolar adulto”. Para que tenhamos uma ideia melhor, o “transtorno bipolar na infância e adolescência” só foi reconhecido como enfermidade em 1994. É um tema novíssimo.
Seja como for, a ideia que as pessoas têm dos bipolares em geral não corresponde à realidade. Se há 14 milhões de bipolares no Brasil, incluídas as formas mais brandas do transtorno, por que não os reconhecemos? E, se temos uma visão equivocada sobre os bipolares, de onde vem essa visão? Certamente ela não vem do nada, mas talvez de livros, filmes e histórias caricatas, cujo objetivo é “chamar a atenção” do leitor ou telespectador.
Entendo perfeitamente quando alguns leitores dizem que a bipolaridade não foi bem “explorada” no romance. Com isso, talvez eles queiram dizer que o transtorno bipolar não apareceu, no romance, de modo caricato ou simplista para que qualquer um pudesse ver o que só alguns conseguem enxergar claramente. Em outras palavras, ou tínhamos uma protagonista bipolar do jeito que as pessoas imaginam ou tínhamos uma bipolar de verdade, como tantas outras.
É claro que podemos alimentar aquela visão distorcida, criando personagens bipolares de acordo com o que as pessoas esperam encontrar. Mas também podemos oferecer às pessoas um bom retrato da realidade, fazendo com que elas pensem ao menos um pouco ou, na pior das hipóteses, fazendo com que se apeguem ainda mais àquela visão distorcida, porque não querem refletir. Os bipolares, certamente, não mudarão para se encaixar na visão estigmatizada que temos deles... Nós é que deveríamos vê-los com outros olhos...
Talvez aqui seja oportuno falar das “camadas de leitura”. É um recurso considerado sofisticado e pouco visto. É como se estivéssemos diante de vários livros... Alguns leitores penetram as camadas de leitura mais profundas. Já outros, apenas as camadas mais superficiais. A Priscilla Duhau, por exemplo, fez uma leitura psicanalítica do romance, baseando-se nos conceitos de ego, id e superego. E, segundo o que pude entender de sua resenha, foi o bastante para entretê-la com o livro. Devo dizer, entretanto, que a camada mais superficial do romance não exige conhecimento prévio algum e que ela permite uma leitura rápida, sem pausas para reflexões ou análises. Porque é a história de amor de uma garota bipolar ou, para alguns, a “love story” de uma adolescente com um não sei que de diferente... Esse “não sei que de diferente” é o transtorno bipolar na adolescência... Mas, como eu havia dito, você não tem que refletir sobre isso; basta acompanhar a história.
Enfim, há várias possibilidades de leitura, desde as mais simples até as mais complexas, e é provável que ao menos uma delas seja do seu agrado.

Por que escolheu o nome Marta?
Do mesmo modo que a Marta bíblica se afligia com as coisas deste mundo em vez de buscar em primeiro lugar a Palavra de Deus ou o Conhecimento Divino, a Marta do romance se afligia com coisas deste mundo (faculdade, uma história de amor, etc.) em vez de buscar o mais importante, que é o conhecimento.
Se ela tivesse conhecimento sobre transtorno bipolar desde o início, talvez não tivesse se afligido tanto com o seu dia-a-dia.
Em outras palavras, do mesmo modo que a Marta bíblica deixou em segundo plano a vida imaterial (mais exatamente a vida espiritual), a Marta do romance deixou em segundo plano sua vida imaterial (mais exatamente sua saúde mental ou psíquica).
“Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária.” (Lucas, X, 41-42.)
O nome Marta significa “senhora da casa” ou “aquela que sofre em silêncio”.
Devo dizer, entretanto, que não é um romance religioso. Qualquer ateu pode lê-lo muito bem!
E, agora que já explicamos o nome da personagem, talvez seja oportuno explicar por que “Marta” é o título do livro. O objetivo do romance psicológico não é contar uma história, mas retratar uma personalidade, de modo que nele são comuns os personagens-título. Dom Casmurro é um exemplo.

O livro tem capítulos que narram a rotina das personagens e outros que explicam a situação de Marta, qual foi o mais difícil de elaborar? E por que fez desse modo?
O romance psicológico é um gênero literário com características próprias, que o tornam diferente de outros gêneros. É um tipo de romance pouco visto, considerado difícil de escrever, geralmente lido por homens mais velhos, mais cultos ou intelectualizados. As partes consideradas mais difíceis são justamente aquelas que vão além da narrativa pura e simples.
Sendo assim, o gênero já existia, e não fiz mais que seguir suas regras. Mas tenho notado que algumas pessoas veem várias características essenciais desse gênero como se fossem características do autor, isto é, características minhas. Talvez seja pelo fato de o gênero não ser do conhecimento ou “da intimidade” da maioria dos leitores.
O ritmo mais lento, a linguagem mais cuidada ou culta, a trama em segundo plano, os vários comentários do narrador, a conclusão por conta do leitor (porque o narrador não lhe diz o que pensar, só fornece os elementos de reflexão), a erudição, etc., tudo isso pertence antes ao gênero que ao autor. Mas basta, ou isto aqui vira uma aula!
Obviamente, fico feliz por notar que “Marta” foi o primeiro romance psicológico de muitos leitores e que, de modo geral, eles têm gostado bastante da “novidade”.

Está trabalhando em algum projeto, se sim, pode nos contar um pouco?
Deixe-me fazer uma surpresa. Por enquanto, façamos segredo. Quem não gosta de surpresas?

Finalizando, gostaria de agradecer a entrevista e fica aberto o espaço para deixar um recado para os leitores.
Eu é que devo agradecer pela oportunidade de falar aos seus leitores. Muitíssimo obrigado! Aos seus leitores, eu gostaria de dizer que há outros gêneros literários além destes que estamos acostumados a ler. 

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